Bolsonaro pode perder eleições e acabar com PL ao mesmo tempo

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Getty Images

Bolsonaro passou quatro anos atacando o processo eleitoral, preparando o terreno para um golpe caso perca nas urnas. Sem apresentar provas nem sequer indícios, o presidente golpista nos garante que existe uma conspiração no TSE para impedir a sua reeleição.

No ano passado, chegou a afirmar com todas as letras que hackers tiraram 12 milhões de votos dele na eleição de 2018. Os criminosos teriam sido contratados pela oposição para acessar os sistemas do TSE nos meses que antecederam a votação. Segundo ele, a fonte dessa informação são “essas histórias que rodam por aí”. No maior descaramento, o golpista confessa: “não tenho provas e não sei se isso é verdade”. O objetivo, claro, é plantar a semente da dúvida na cabeça da população e semear o terreno para deslegitimar a eleição e tentar um golpe para se manter no poder.

À medida que a eleição vai se aproximando, Bolsonaro vai pisando cada vez mais fundo no acelerador do golpismo. A possibilidade de derrota no primeiro turno apontada pelas pesquisas fez o presidente golpista intensificar os questionamentos sobre a confiabilidade do processo eleitoral.

No mundo conspiratório dos golpistas, a fraude nas urnas é dada como certa. Já no mundo real, a confiabilidade do sistema eleitoral só cresce desde que as urnas eletrônicas passaram a ser utilizadas. Pela terceira vez, observadores internacionais enviados pela OEA acompanharão as eleições brasileiras. Esses observadores são reconhecidamente técnicos especializados em administração eleitoral e democracia. Nessa semana, eles têm se encontrado com candidatos, representantes de partidos, presidente do Senado, presidente do TSE, presidente do STF, presidente da OAB, entre outros. Essa possivelmente será a eleição mais fiscalizada da história das eleições brasileiras. Esse excesso de transparência é uma pedra no sapato do golpismo que age nas sombras.

Na última segunda-feira, o chefe da missão da OEA, o paraguaio Rubén Ramirez Lezcano, se reuniu com Jair Bolsonaro e saiu do encontro dizendo que a “reunião foi muito cordial”. O fato é que o presidente golpista não suporta a presença deles. Em maio, declarou: “Pode botar um milhão de observadores aqui. Eles vão observar o quê? Vão ter acesso ao código-fonte? Vão estar na sala secreta para ver como é a apuração? Qual o conhecimento deles de informática?”. Jair despreza a presença de observadores internacionais, porque sabe que eles confirmarão que o processo eleitoral é legítimo, assim como confirmaram nas duas últimas eleições.

Na quarta-feira, o PL, partido do presidente golpista, emitiu uma nota apócrifa em que afirma categoricamente que o resultado da eleição pode ser fraudado por um grupo de servidores do TSE. Segundo o texto, uma auditoria contratada pelo partido teria encontrado “24 falhas” no sistema de votação. Provas disso? Nenhuma. Nenhum indício sequer foi apontado. Nada.

O texto é um amontoado de suposições sem fundamento que servem apenas para tentar corroborar as mentiras disseminadas pelo presidente nos últimos anos. Apesar de não ter sido assinado por ninguém, o documento representa a posição oficial do partido. Ele se mostra alinhado às mentiras e ao golpismo do presidente. É grave.

O medo de Bolsonaro perder a eleição e acabar na cadeia tem aumentado. Em consequência desse desespero, ele dobrou as apostas golpistas.

O TSE respondeu de forma dura. Menos de quatro horas depois da nota golpista do PL, o tribunal determinou que integrantes do partido sejam investigados por produzir informações “falsas e mentirosas” sobre o processo eleitoral.

Segundo nota do tribunal, as informações produzidas são “fraudulentas e atentatórias ao Estado Democrático de Direito e ao Poder Judiciário, em especial à Justiça Eleitoral, em clara tentativa de embaraçar e tumultuar o curso natural do processo eleitoral”. O TSE identificou indícios de crime eleitoral e de atentado ao estado democrático de direito. Alexandre de Moraes determinou que o documento mentiroso do PL se torne alvo de investigação criminal no âmbito do inquérito das fake news.

A contratação dessa auditoria foi um pedido de Bolsonaro ao partido. Segundo a Folha, o partido de Bolsonaro pagou R$225 mil ao instituto responsável pela auditoria, cujas conclusões mentirosas fundamentaram a nota golpista emitida pelo partido.

A Corregedoria Geral da Justiça Eleitoral deu 24 horas para o presidente do PL, Waldemar da Costa Neto, explicar se usou dinheiro público na contratação da auditoria fake. Se ficar comprovado que foi usado verba do fundo partidário para esse fim — e tudo indica que foi —, estaremos então diante de um grave crime eleitoral, que pode levar à cassação da legenda depois das eleições.

O curioso é que Waldemar da Costa sempre foi um entusiasta das urnas eletrônicas. Algumas horas antes de ser lançada a nota apócrifa do PL, o deputado esteve no TSE e confirmou que não existe a tal “sala secreta” em que é feita a contagem de votos — uma mentira repetida exaustivamente pelo presidente. A declaração irritou Bolsonaro, que exigiu do partido a divulgação imediata do estudo golpista. Foi por isso que o documento foi emitido sem assinatura: ninguém quis se comprometer com um texto ostensivamente criminoso.

O medo de Bolsonaro perder a eleição e acabar na cadeia tem aumentado. Em consequência desse desespero, ele dobrou as apostas golpistas. Nessa semana que antecede a votação, o presidente encaminhou um texto por WhatsApp a vários contatos pregando ruptura institucional e ação dos militares caso Bolsonaro descumpra as “ordens ilegais” do STF. A CNN Brasil revelou o print do texto disparado pelo presidente:

Trecho da mensagem que Bolsonaro disparou a contatos após a divulgação da nota golpista e apócrifa do PL.

Os ataques de Bolsonaro contra Alexandre de Moraes também se intensificaram essa semana. Cada vez mais destemperado, o presidente gritou com o ministro do TSE em uma de suas lives: “seja homem!”.

Moraes foi chamado de “moleque”, “patife” e ainda foi acusado de um crime grave: o vazamento de informações sigilosas de uma investigação da Polícia Federal sobre um possível esquema de rachadinha dentro do Palácio do Planalto. Nenhuma prova da autoria do vazamento foi apresentada por Bolsonaro, claro.

Após anos de omissão do Congresso, da PGR e outras instituições que poderiam enquadrar o golpismo criminoso dos bolsonaristas, coube aos tribunais superiores agirem em defesa da democracia. As últimas ações do TSE e do STF contra os movimentos golpistas liderados pelo presidente acabam por ajudar a alimentar a narrativa de que o presidente é perseguido nos tribunais.

Mesmo assim, tudo leva a crer que o golpismo bolsonarista está com os dias contados. Amanhã, 2 de outubro, teremos a chance de deixar o presidente golpista desempregado, sem foro privilegiado e tendo que responder a uma série de acusações de crimes gravíssimos, sustentados por provas irrefutáveis. Se Bolsonaro não for enterrado no primeiro turno, que seja no segundo. E que a justiça não deixe o golpismo impune!

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