A terceira via não decola porque está no bolso de Bolsonaro
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A terceira via não decola porque está no bolso de Bolsonaro

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Ilustração: The Intercept Brasil

Faltando apenas cinco meses para as eleições, as pesquisas indicam um cenário de consolidação da chamada polarização. Lula e Bolsonaro aparecem bem à frente dos demais candidatos e é improvável que haja mudança nesse quadro.

Segundo a última pesquisa CNT-MDA, aproximadamente 80% do eleitorado dos dois afirma que a escolha do voto é definitiva. Enquanto isso, a autodeclarada terceira via ainda nem escolheu candidato. Todos os nomes cogitados até aqui patinam nas pesquisas e estão muito longe de chegar aos dois dígitos.

A consolidação desse cenário deixa a turma da terceira via preocupada. Eles, que ajudaram a eleger um extremista de direita e hoje posam de moderados e centristas, ensaiam uma volta ao aconchego bolsonarista.

A terceira via é aquela direita dita civilizada que hoje passa por um certo constrangimento por ter contribuído para a instalação da selvageria fascistoide em Brasília. Diante da inviabilidade das suas candidaturas, a vergonha pelo que fizeram no verão passado tem diminuído.

Os caciques de MDB, União Brasil, PSDB e Cidadania não admitem publicamente uma possível aproximação com Bolsonaro ainda no primeiro turno, mas a tendência é que boa parte deles busque se abrigar sob o guarda-chuva eleitoral de Bolsonaro.

União Brasil lançou Luciano Bivar como pré-candidato e enfraqueceu mais a terceira via.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Governadores do PSDB e do União Brasil, por exemplo, preocupados com as eleições estaduais, têm declarado apoio à candidatura de Bolsonaro no primeiro turno. Os governadores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rondônia já sentaram no colo de Bolsonaro. A expectativa é de que Ceará e Paraíba sejam os próximos. Não é pouca coisa. Mesmo após passar boa parte do mandato em guerra contra os governadores, Bolsonaro não tem encontrado grandes dificuldades para conseguir apoio deles, isolando ainda mais os candidatos da terceira via.

Depois de ser traído por Sergio Moro, o Podemos também ensaia uma aproximação com Bolsonaro, pelo menos no segundo turno. Integrantes do partido consideram mais seguro embarcar em uma das candidaturas que lideram as pesquisas.

O fato é que a candidatura de Bivar dificilmente se manterá de pé e o seu lançamento serviu apenas para enfraquecer ainda mais a terceira via.

O senador Eduardo Girão, que defendeu com unhas e dentes o negacionismo bolsonarista durante a CPI da Covid, já deixou pistas de que pode apoiar Bolsonaro. Em entrevista ao Jovem Pan, o senador afirmou que a candidatura de Lula é “uma aberração jurídica” e que o governo Bolsonaro  “teve pontos positivos e negativos”. Para o bom entendedor meia palavra basta.

Todos esses partidos, ou pelo menos a maioria deles, acabarão apoiando Bolsonaro no primeiro ou no segundo turno, ainda que não seja viável admitir isso publicamente nesse momento. Os partidos que buscam compor a chapa da terceira via haviam anunciado um acordo para o lançamento de um candidato único para o próximo dia 18.

Mas o União Brasil decidiu quebrar o combinado e anunciou que o seu candidato será Luciano Bivar, o ex-bolsonarista indiciado pela PF por comandar um esquema de candidatos laranjas no PSL. O fato é que a candidatura de Bivar dificilmente se manterá de pé, e o seu lançamento serviu apenas para enfraquecer ainda mais a terceira via. Talvez tenha sido essa a intenção.

Apesar da traição do União Brasil, MDB, PSDB e Cidadania aparentemente ainda tentam manter viva a possibilidade de lançar um candidato único da terceira via. Na última quarta-feira, os partidos anunciaram que o candidato será definido após análise de pesquisas quantitativas e qualitativas. Tebet, do MDB, e Doria, do PSDB, são os pré-candidatos que sobraram.

Candidatura de Simone Tebet pelo MDB está prestes a naufragar, e membros do partido pressionam por alinhamento a Bolsonaro.

Foto: Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress

A expectativa é de que a decisão será tomada apenas em julho. Até lá, os caciques terão a árdua missão de convencer governadores, prefeitos e parlamentares eleitos dos seus partidos de que vale a pena apostar em uma candidatura que tem tudo para morrer na praia.

Um levantamento feito pelo MDB com base nos delegados dos diretórios estaduais, nas bancadas e nos prefeitos do partido aponta uma ampla maioria de apoiadores à reeleição de Bolsonaro. Se o partido desistir de candidatura própria — e há grande pressão interna para que desista —, o embarque na candidatura bolsonarista será inevitável.

Em um cenário polarizado, ficar em cima do muro batendo nos dois serviu apenas para deixar a candidatura sem identidade e o eleitor confuso.

São grandes as chances do partido que ajudou a restaurar a democracia no país acabar apoiando a reeleição de um ex-militar golpista alinhado aos ideais da ditadura. Essa é uma tendência que existe também dentro do PSDB. Bolsonaro cooptou boa parte da base política desses partidos através de emendas e outros tipos de direcionamento de verbas públicas. A terceira via está estagnada porque a maioria dos políticos que a compõem já está no bolso do governo federal.

Outro grande motivo para que a terceira via siga patinando nas pesquisas é a decisão de se opor tanto a Bolsonaro quanto a Lula. Em um cenário polarizado, ficar em cima do muro batendo nos dois serviu apenas para deixar a candidatura sem identidade e o eleitor confuso.

Para crescer nas pesquisas, a turma da terceira via deveria escolher um dos dois para se opor frontalmente. Tendo em vista que só um milagre tira Lula do segundo turno e que a terceira via disputa o mesmo eleitorado de Bolsonaro, o mais sensato seria bater no presidente para desidratá-lo e tentar roubar a vaga no segundo turno. Essa seria uma escolha óbvia, mas muito difícil, como diria o Estadão, já que o centrismo da terceira via é apenas de fachada, e as verbas que a máquina federal podem proporcionar são sedutoras.

PSDB de Joao Doria já se aliou ao bolsonarismo em estados do Norte e Nordeste.

Foto: Bruno Santos/ Folhapress

Se ainda havia dúvida sobre as verdadeiras motivações que movem a terceira via, agora ninguém mais tem o direito de tê-la. As máscaras caíram de vez. A fantasia de cordeiro centrista que vestia o lobo direitista foi rasgada. A terceira via não tem candidato porque sua base política se acochambrou com o bolsonarismo e está louca para embarcar mais uma vez na canoa golpista na próxima eleição.

Bolsonaro militarizou o governo e vem ameaçando de maneira sistemática as instituições e o processo eleitoral, mas isso não parece ser um problema tão grave aos olhos da maior parte dos integrantes do bloco dito de Centro.

Não foi à toa que todos os partidos de terceira via citados neste texto apoiaram os projetos bolsonaristas em mais de 75% das vezes nas votações da Câmara dos Deputados. Ninguém poderá se dizer surpreso quando os centristas de fachada virarem o volante novamente para a direita fascistoide.

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