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Bolsonaro se isolou como o maior líder antivacina do mundo

Foto: Andressa Anholete/Getty Images

“As vacinas matam! Não tomem elas. Esses idiotas são tão ingênuos. Eles estão todos se vacinando”, disse Cirsten Weldon, uma famosa influencer da extrema direita americana obcecada em gravar vídeos atacando as vacinas e disseminando as teorias conspiratórias do Qanon.

A militante abraçava as conspirações com fervor religioso e chegou a defender o enforcamento de Anthony Fauci, o epidemiologista-chefe do governo americano. Contrariando as evidências escancaradas de que as vacinas salvam vidas, Weldon não se vacinou e morreu dias após dizer que as “vacinas matam”.

O crescimento do movimento antivacina no mundo foi impulsionado em boa parte pela extrema direita. Em meados de 2019, antes do início da pandemia, escrevi uma coluna alertando para o casamento da extrema direita mundial com o movimento antivacina. Assim como o terraplanismo e o negacionismo climático, o discurso antivacina se encaixa perfeitamente na retórica antissistema tão cara aos extremistas lunáticos.

Assim como Bolsonaro, Donald Trump passou o governo alimentando as conspirações do Qanon contra as vacinas. Mas, agora, fora do poder, o ex-presidente americano passou a defender a vacinação, causando revolta em parte dos seus fiéis seguidores. Um dos principais teóricos da conspiração do Qanon, Alex Jones, chamou Trump de “patético” e ” “completo ignorante” pelo fato dele ter defendido as vacinas em um programa de TV no mês passado. Trump admitiu ter tomado a terceira dose da vacina contra covid e afirmou que as vacinas são seguras e “salvaram dezenas de milhões de pessoas”. Bolsonaro está isolado como o único líder mundial que segue imerso no negacionismo.

Até a chegada da pandemia de coronavírus, o próprio governo tratou os programas de vacinação como prioridade. O então ministro Luiz Henrique Mandetta se mostrou preocupado com a queda no índice de vacinação do país e chegou a defender na Assembleia Mundial de Saúde, órgão ligado à ONU, a ampliação da cobertura da vacinação como prioridade para o mundo. Quando a produção de vacina contra sarampo — doença que estava quase erradicada no mundo e ressurgiu com a contribuição do movimento antivacina — ficou escassa, Mandetta propôs que se levasse à OMS um documento assinado por vários países pedindo que a produção de vacinas fosse considerado um bem imaterial da humanidade.

‘O bolsonarismo ofereceu ao movimento antivacina uma estrutura para disseminar suas loucuras’.

Com a pandemia, todos esses esforços foram jogados por água abaixo. O bolsonarismo passou então a reproduzir o discurso antivacina da extrema direita internacional. Mandetta virou inimigo do governo e hoje quem ocupa sua cadeira é um negacionista que, apesar de se dizer um defensor da vacinação, na prática alimenta teorias da conspiração contra as vacinas e coloca dúvidas sobre elas. É um médico pau-mandado do presidente que diz para o seu povo que ele pode desenvolver aids se tomar vacina contra covid. A política de vacinação consolidada no país é referência no mundo e apresenta um dos maiores índices de cobertura do mundo.

Após a pandemia, Bolsonaro praticamente transformou o boicote às vacinas em política pública. Hoje temos uma série de médicos que viraram celebridades nas redes de extrema direita contestando vacinas publicamente. O bolsonarismo ofereceu ao movimento antivacina uma estrutura para disseminar suas loucuras. Hoje as celebridades negacionistas contam com amplo espaço dentro da programação de veículos alinhados ao presidente.

Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images

Mas se trata de um movimento hipócrita. Até mesmo bolsonaristas ferrenhos tomaram a vacina contra a covid, apesar do seu líder estar em campanha diária contra ela. Suspeita-se que até mesmo Bolsonaro tenha tomado a vacina que vive demonizando, mas isso só saberemos daqui 100 anos, quando expira o sigilo que ele impôs à sua própria carteira de vacinação.

Na Jovem Pan, médicos negacionistas e comentaristas da emissora se sentem à vontade para colocar dúvidas sobre a eficácia das vacinas. A ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel, por exemplo, usa o microfone da emissora para espalhar mentiras sobre as vacinas. Ela chegou a dizer no ano passado que as vacinas contra covid aplicadas nos EUA já causaram a morte de 501 pessoas e mais de 11 mil reações adversas. Ana Paula tirou esses dados de uma plataforma na qual qualquer pessoa pode incluí-los.

‘As pessoas estão ainda mais inseguras em vacinar seus filhos por estarem expostas à desinformação que jorra do Planalto, das redes sociais, da Jovem Pan e de outros veículos’.

Mas é na negligência das redes sociais que o negacionismo antivacina voa para valer. Neste ano, o Twitter ofereceu o selo de verificação para Bárbara Destefani, uma famosa youtuber bolsonarista disseminadora de fake news sobre as vacinas. A empresa não viu problema em credibilizar através do selo azul uma mulher que virou alvo do TSE no ano passado por contar uma série de mentiras sobre o processo eleitoral. Um mês antes de ser verificada, Bárbara contou no Twitter sobre um suposto programa que injetará um chip na população para certificar o histórico de vacinação. Mas, claro, nunca existiu tal programa em andamento.

A proliferação do discurso antivacina no país começa a ter efeitos. Segundo pesquisa do PoderData, 16% dos brasileiros disseram que não pretendem vacinar seus filhos contra covid e outros 13% não souberam responder. Quase 30% não vão ou não têm certeza se devem vacinar seus filhos. Essa porcentagem seria impensável alguns anos atrás. O número de crianças recém-nascidas vacinadas vem caindo drasticamente desde 2011.

Em 2019, o país não alcançou a meta mínima de vacinação (95%) para nenhuma doença pela primeira vez em sua história. Cada vez mais recém-nascidos brasileiros estão expostos a doenças como sarampo, poliomelite, hepatite e febre amarela. O bolsonarismo está ajudando a destruir a cultura vacinal construída durante muitas décadas pelo poder público.

As pessoas estão mais inseguras em vacinar seus filhos por estarem expostas à desinformação que jorra do Planalto, das redes sociais, da Jovem Pan e de outros veículos alinhados ao presidente. O Brasil ainda é referência em cobertura vacinal mas, aos poucos, está se criando aqui também uma cultura antivacina como a dos EUA entre a população alimentada pela mesma estrutura de fake news que ajudou a eleger e a sustentar o bolsonarismo.

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